Vestíbulo de coisa nenhuma!

By lucianoaferreira

Leia e comente o “post” abaixo. Um grande abraço,

Luciano Almeida Ferreira.

Os exames vestibulares são uma das maiores, possivelmente a maior praga que infesta a educação brasileira. O seu nome, derivado de “vestíbulo”, que quer dizer “átrio, entrada de um edifício”, sugere que eles são apenas uma inocente e estreita porta de entrada para as universidades. De fato, para isso foram criados. Mas freqüentemente acontece com as instituições sociais o mesmo que ocorre com os medicamentos: os efeitos colaterais não-previstos são mais importantes que os efeitos desejados. Pode ser que a cura seja pior que a doença.
É o caso dos vestibulares. Anunciados como inocentes portas de entrada, o seu efeito maior, entretanto, tem sido o seu poder de moldar e determinar os padrões de educação nas escolas de ensino médio e até mesmo de ensino fundamental. Cúmplices nesse processo são os pais. Ansiosos por ver seus filhos nas universidades, por imaginarem que um diploma vai lhes garantir segurança econômica, exercem pressões sobre as escolas no sentido de que elas se transformem em instituições dedicadas a “preparar para os vestibulares”. Boa escola é aquela que segue os modelos dos cursinhos. Aquelas que não se ajustam estão condenadas à marginalização: instituições inúteis, não preparam para os vestibulares.

Os professores que preparam as questões para os exames vestibulares, cada um mergulhado nas particularidades da sua própria disciplina, nem de longe imaginam que, ao elaborar uma questão, estão determinando os rumos da educação no Brasil. Não sabem que no simples ato de imaginar um problema eles estão determinando padrões de inteligência e padrões de conhecimento para todos os jovens do Brasil. O padrão de conhecimento refere-se à soma de informações julgadas necessárias e indispensáveis para se passar nos exames. O tipo de inteligência refere-se às operações mentais julgadas essenciais para o mesmo fim.

Ora, esses dois elementos, padrões de conhecimento e padrões de inteligência, constituem-se num resumo de toda uma filosofia da educação. Os exames vestibulares, assim, involuntariamente, estabelecem o modelo de excelência educacional a ser seguido pelas escolas.

Quanto à inteligência, é preciso saber que não há uma, mas muitas. Como na estória da Bela Adormecida, muitas delas se encontram mergulhadas em sono profundo, à espera de que um beijo de amor as acorde… Outras, segundo denúncia de Hermann Hesse, são simplesmente assassinadas. Os exames vestibulares encontram-se entre os feiticeiros que fazem dormir muitos tipos de inteligência e entre os assassinos que matam muitas outras. São, assim, culpados de bruxaria e assassinato…

Uma professora da Unicamp me contou que os alunos que mais dificuldade tinham em seguir a sua disciplina eram aqueles que haviam passado nos primeiros lugares nos exames vestibulares. Havendo desenvolvido com sucesso o tipo de inteligência necessária para passar nos vestibulares, que pressupõe haver sempre uma alternativa correta, entre as várias apresentadas, a sua inteligência não conseguia conviver com uma situação de incertezas, em que cada decisão é sempre uma aposta. Os alunos perguntavam sempre: “Mas, professora, qual é a resposta certa mesmo?”

Assim é a inteligência vestibularesca, em direta oposição à inteligência científica que, como K. Popper e Thomas Kuhn o demonstraram, só germina, cresce e dá frutos em meio às incertezas e apostas.

No caso das disciplinas incluídas na área de humanidades o resultado da inteligência vestibularesca é igualmente assassino. Paul Goodman afirmava não conhecer nenhum método para ensinar as humanidades que não as matasse. O prazer, na leitura de um livro, faz parte da própria essência do livro. Daí a impossibilidade de se ensinar as humanidades para passar no exame. O ensino das “ciências da linguagem” não desenvolve nem o prazer na leitura nem o prazer em escrever. O miserável artifício de estudar os “resumos” dos livros, com os nomes das personagens e o esboço da trama, é uma forma segura de matar o amor pelo ato vagaroso e preguiçoso de ler. De alguma forma essas disciplinas só são aprendidas se não houver uma guilhotina ao final do caminho. É como o amor: a ameaça da punição, se a performance for insuficiente, é a garantia de que ela será…

Há, depois, o absurdo da quantidade e do tipo dos conteúdos de informação que os estudantes devem trazer para os exames. Pede-se, dos estudantes, que eles saibam mais, em amplitude, do que sabem cientistas já formados. Gostaria que os professores universitários se submetessem, voluntariamente, aos exames vestibulares. Os resultados seriam muito instrutivos. Como é altamente provável que um grande número não passasse, eu inclusive, a conclusão inevitável seria a de que existe algo de absurdo nas exigências de conhecimento dos exames vestibulares.

A mente só guarda e opera conhecimentos de dois tipos: (1) os conhecimentos que dão prazer e (2) os conhecimentos instrumentais, que podem ser usados como ferramentas. Como uma altíssima porcentagem do que se exige para os exames vestibulares não é nem conhecimento que dê prazer nem conhecimento que se use como instrumento, esse supérfluo é logo esquecido. O esquecimento é uma operação da inteligência que se recusa a carregar o inútil e o que não dá prazer. A inteligência deseja viajar com leveza… Assim, todo o enorme gasto de tempo, dinheiro, energia, todo esse imenso sofrimento de filhos e pais, está destinado a terminar como os castelos de areia construídos na praia: é logo lavado pela maré do esquecimento.

Rubem Alves

29 Respostas para “Vestíbulo de coisa nenhuma!”

  1. Rosiquel Disse:

    É, a superficialidade e memorização que qualquer exame objetivo provoca nos candidatos é grande, no caso do vestibular consegue ser ainda pior, é uma euforia, expectativa, tensão muito grande que abala qualquer um. Por isso é tão dificil a conscientização de que não passa de supérfulo de assassinato até mesmo ao veradadeiro sentido e importancia das coisas que rodeiam o conhecimento no geral, nas competências e outros aspectos que fazem parte da essência educacional do ser humano, levando tudo isso a uma desordem e menospreso a educação Brasil.

  2. anderson Disse:

    expandir o número de universidades seria boa uma proposta para tentar resolver o problema da demanda que tem que ser escolhida, no final, aquels que tem mais condições de “comprar” o conhecimento um vez que o governo nao o oferece de graça; mas do que adiantaria crescer a quantidade universidades se o que vem primeiro que é a educação básica não qualidade? Seria como construir uma casa com base de areia.

  3. Lara Thaíse Disse:

    Percebo que por um lado o autor diz uma grande verdade que é:A mente só guarda e opera conhecimentos de dois tipos: (1) os conhecimentos que dão prazer e (2) os conhecimentos instrumentais, que podem ser usados como ferramentas.E por outro lado podemos seguir outro caminho que não seje esse do apenas decoreba, pois muitas vezes não estamos totalmente preparados para engranar nesse mundo novo, as vezes pensamos que o estudar que acaba se tornando o “decorar” é o suficiente, precisamos perceber que nao se resume apenas em uma porta de entrada para universidade em sim o papel que iremos desempenhar dentro dela, para podermos sermos futuramente bons profissionais em qualquer que seje o assunto, para que possamos desenvolver o verdadeiro papel do profissional. Com erros sim mais com mais expectativas mais experiências das quais só podemos adiquirir com a prática e o seu desenvolver natural.

  4. Milena Carvalho Disse:

    Às vezes pergunto a mim mesmo se para passar num vestibular é necessário sorte ou conhecimento, essa dúvida vem a partir de algumas reportagens e até mesmo por conhecer pessoas que foram ótimos alunos no Ensino Médio, passarem em uma universidade federeal e simplesmente serem reprovados em universidades particulares, onde é considerada de mais fácil acesso. Realmente o que é exigido para os exames vestibulares não é nem conhecimento que dê prazer nem conhecimento que se use como instrumento, sendo logo esquecido. Acho bem interresante quando o Rubem Alves fala que “… Gostaria que os professores universitários se submetessem, voluntariamente, aos exames vestibulares. Os resultados seriam muito instrutivos. Como é altamente provável que um grande número não passasse, eu inclusive…”

  5. cristina Disse:

    Quando se trata do fato das ansiedade dos pais quanto a escolha das escolas, dos cursinhos se vão preparar seus filhos para o vestibular, é compreensivo pelo fato da cobrança da sociedade que seleciona os mais qualificados, mas por outro lado esquece que aprender deve andar junto com o prazer em aprender o que estuda, pois no texto fala que nós realmente só aprendemos o que nos causa prazer em aprender ou o que vão ser feramentas, que como no caso do vestibular vai passar e vou esquecer !!

  6. Mariana Carnaúba Disse:

    Com relação o exame de fato ele é um átrio.
    Como o texto mesmo fala, o maior problema é moldar e determiar os padrões da educação e estes mesmo começando pelos pais dos alunos onde eles aplicam aquele famoso efeito guilhotina em cima dos professores e cursinhos, onde para aqueles que não se ajustarem serão condenados e marginalizados.
    Ou seja, se realmente eles os pais não cairem em cima, concordaria com o Rubem Alves fazer com que os professores também passem pelo exame.

  7. Gilson Pereira Disse:

    O TEXTO TRATA DAS DIFICULDADES QUE OS ALUNOS TEM PARA PASSAR NOS VESTIBULARES, EM RELAÇÃO AO QUE É ESTUDADO NA ESCOLA.
    QUE TUDO QUE VOCÊ VÊ NA ESCOLA NÃO AJUDA NA HORA DE FAZER O VESTIBULAR.

  8. Mizia, Suelem Disse:

    nao adianta forçar os estudos se nao tem objetivo ou se o conhecimento para si é inutil, os vestibulares se torna mais dificil quando o aluno encara a aprendizagem como dificuldade e assim deixando a desejar na provas.

  9. Nilde Cardoso de Oliveira Disse:

    Os vestibulares são a porta de entrada para as melhores universidade federal de todo o país, por isso notamos a ansiedade de muitos pais e futuros universitários. Realmente é um átrio mais vejo como algo bom, o problema é como o sistema educacional estar organizado. Penso que ensino médio poderia ter uma preparação maior e mais bem organizada em todo o sistema estadual de ensino, bem como o ensino fundamental no sistema municipal de educação.
    Precisamos perceber que o vestibular não se resume apenas em uma porta de entrada para universidade em sim o papel que iremos desempenhar dentro dela, para podermos sermos futuramente bons profissionais e cidadão compromissado com o ordem politica e social da sociedade em que vivemos. Em fim a cada destino dos universitários é determinado pelos objetivos educacionais que as vez só atende uma parcela da sociedade.

  10. Amilton junior Disse:

    Quando se tem acesso a uma reflexão profunda como a expressa no texto, sobre os diversos tipos de inteligência sobre, o conhecimento e os reflexos de avaliações, puramente classificatórias e quantitativas, é possível ver um pouco mais além, no que se refere ao tipo de sujeito que as escolas estão formando. Há uma forte vinculação do ensino, (principalmente do ensino fundamental em diante) à preparação para o vestibular e isto acaba por limitar o cognitivo do aluno. Me parece que já passa do momento de se quebrar o paradigma do “vestíbulo”.

  11. Anne Karollyne de Oliveira Disse:

    É verdade o vestibular é uma pressão muito grande imposta pelos pais, e por todos aqueles que desejam ingressar em uma faculdade.
    Essa maneira de avaliar a capacidade de cada aluno pode se falar várias coisas sobre isso, sendo que, temos que ter algum conhecimento e esse conhecimento teria de alguma forma documentado e provado que maneira seria essa? de avaliar pessoas de niveis sociais, padrões de ensino muito diferentes. Então aqui fica a minha pergunta.
    Concordo que o nosso cérebro apenas guarda aquilo que te dar prazer ou coisas uteis, mais muitas coisas temos que aprender forçosamente para podermos alcançar nossos objetivos.
    Concordo também que não podemos saber de tudo minuciosamente, mais que temos áreas que nos identificamos mais e por conta disto, nos sairemos melhores.

    • lucianoaferreira Disse:

      Sim, de fato “muitas coisas temos que aprender forçosamente para podermos alcançar nossos objetivos”. Concordo. No mais ainda prefiro aprender o que é “prazeroso” ou “útil”, hehehe. Abração,
      Luciano.

  12. Alaides Carvalho da Silva Disse:

    O texto nos mostra como é dificil entrar em uma universidade, está se tornando cada vez mais complicado.
    N

  13. Alaides Carvalho da Silva Disse:

    (continuação)
    Na verdade os vestibulares se tornan mais dificil quando os alunos encaram a aprendizagem como dificuldade, temos que focar em um objetivo e correr atrás dele até conseguir.
    Facil não é, mas também não é impossivél!

  14. Maria Sofia Dias Siqueira Disse:

    Rubem Alves fala com muita propriedade de como os conteúdos exigidos nas provas de vestibular são tão dispensáveis e estressantes, tanto para os vestibulandos quanto para as famílias envolvidas neste processo e de como são na maioria inúteis para a carreira ou profissão escolhida. Infelizmente as provas de vestibular tem influenciado e muito no que diz respeito aos conteúdos ensinados nas escolas de ensino fundamental…

  15. Aracy Fernandes Moreira Disse:

    O vestibular com certeza é parte mais importante dos estudos, pois será testado se todos os estudos dos anos anteriores valeram de alguma forma para passar na tão sonhada faculdade e dar seu primeiro passo para ser um grande profissional de sucesso. Um ser humano sem sonhos não é ninguém, a vida inteira de um individuo é baseada na sua busca pela realização de seus sonhos, e o vestibular é o sonho de muita gente. Para realizá-lo não será algo fácil, senão não seria um sonho. Mas com toda a certeza não é algo impossível.

  16. paulo adriano c. lopes Disse:

    Posso ate concordar com o autor no que se refere a curriculo do aluno “aqueles alunos vindo das escolas de nome vão ter mais chances do que aqules menos favorecidos”. Seria pecar em não colocar a minha opinião, como aprendi na faculdade ser critico, leitor e escritor. lemos o enunciado e comentamos. quero ver esse mecanismo acontecendo e que der certo, afinal aconteceram muitas coisas boas em nosso pais no que diz respeito a entrada na faculdade….como o PROUNI e cotas universitarias…

  17. paulo adriano c. lopes Disse:

    Sobre o vestibular em nosso país, muitos passam anos se preparando em cursinhos para garantir a sua entrada, passando-o para quem estar se preparando ou ate quem nao se prepara é um sonho passar no vestibular, uma maneira de medir seus conhecimentos se tornando um profissinol de sucessos atraves dos tempos….

  18. Lucivana e Valéria Disse:

    Possamos até acreditar no autor, mas acho que o vestibular, não seja sorte de passar mais sim, o ensino de má qualidade, pois nos achamos que o ensino da Rede Pública e Municipal, não só no Estado mais no Brasil todo, não seja adequado para os alunos que estão se preparando pra pestar um vestibular, e nisso que nos achamos, que a falta de qualidade de ensino, prejudica os alunos no seu aprendizado, e também supletivo pode prejudica os alunos, devido naõ ver todos os conteúdos necessário para seu aprendizado.

  19. Leila Magna e Josefa Rodrigues Disse:

    Os resultados da prova Basil deste ano foi uma negação e nos faz refletir sobre a questão da qualidade do ensino. Será que as escolas que se propõem a preparar para o vestibular estão realmente atingindo seus objetivos? O que está faltando?

  20. solange e Marineusa Disse:

    Acreditamos que para passar no vestibular e necessário ter um conhecimento amplo ,pois do modo que vem sendo aplicado esse tipo de avaliação exige que o candidato esteja preparado.E as escolas públicas muitas vezes deixa a desejar nas provas. tormando um sofrimento para o candidato.

  21. Juldeci & Silvânia Disse:

    Certo é que não se serve a “dois senhores”. Há um tempo falava-se que a escola não preparava o aluno para o vestibular bem como para avaliações externas, agora comenta-se que os alunos só são preparados para os exames vestibulares. Entendemos que a educação deve ser concebida visando preparar o indivíduo para toda a vida. Mas, e aí? quando é que saberemos qual o melhor caminho a seguir? Trabalharemos as duas formas de ensino?

  22. Aurenice Disse:

    Quando Rubens Alves fala que a mente só assimila o conhecimento que dá prazer ele já prova porque o vestibular não acrescenta nada para a pessoa. Pois é um momento de terror, tensão e pavor, nada de prazer.

  23. Fernanda Maria Cirqueira de Castro Disse:

    O vestibular é importante para os estudos, pois e um teste que avaliar de certa forma o amplo conhecimento adquirido pelo educando nos anos anteriores levando a uma aprovação na faculdade dando assim seu primeiro passo para ser um grande profissional de sucesso.

  24. PATRICIA E RONALDA Disse:

    O vestibular é porta de acesso para quem deseja ingressar no ensino superior. O que fazer com todo este conteudo estudado no decorrer da prepação do vestibular. O autor é claro quanto a estam questão” A mente só guarda e opera conhecimentos dos dois tipos (1) conhecimentos que dão prazer (2) conhecimentos instrumentais que podem ser usados como ferramenta. Concordo com a linha de pensamento do autor que é enorme o gasto de tempo, dinheiro e energia…

  25. Alvenita Pereira dos Santos Disse:

    Concordo plenamente com Alves!
    Que tortura é o exame para o vestibular! Além da expectiva por parte da familia e da sociedade, “não passar” é sinônimo de incapacidade. Infelizmente por questões sociais (acredito) todos que buscam ingressar no ensino superior, temos que experimentar essa experiencia “terrivel” dos processos seletivos! O ensino em si, tem focado justamente essa questão da preparação, e conforme o texto, o saber adquirido nesse foco acaba se perdendo. E olha que pensava que somente EU não lembrava de muita coisa dessa maratona de estudo.. UFA !!! rsrs…. Até quando a formação básica será pensada desta forma? É só o ingresso no ensino superior que conta, ou a formação plena do sujeito está em planos secundários? haddad…. haddad…

  26. Mírian e Sirlene Disse:

    Concordo que o vestibular é uma estreita porta de entrada para a universidade, e que há uma forte pressão da sociedade para os “futuros acadêmicos”, mas, eu penso que se a população fosse mais preparada durante toda a vida escolar, não sofreriam tanto com o vestibular. São as políticas públicas que não funcionam… o Estado que não dá prioridade para a educação, para não formar cidadãos criticos…

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